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ALCOBAÇA

Portugal era então um país pobre, agrário, pouco industrializado e quase sem grandes centros urbanos. A maioria da população vivia nos campos, onde praticava uma agricultura de subsistência no limiar da miséria absoluta. Natividade, no entanto, havia de descrever o sítio com carinho: «Neste oceano de verdura aparece Alcobaça, cercada de pequenos montes, cobertos de pujante vegetação, que a protegem como poderosa muralha natural. A casaria branca parece erguer-se do seio dos rios que a cruzam e, como um bloco gigantesco, o enorme mosteiro domina ainda hoje, como outrora, a povoação que se estende a seus pés». (NATIVIDADE, 1922)

Alcobaça não era exactamente um lugar isolado. Havia uma estação da linha ferroviária a cerca de cinco quilómetros de distância. Em cada Verão, as famílias abastadas de Alcobaça desciam à Nazaré ou a São Martinho do Porto para ir à praia.

Habitam na Praça do Mosteiro de Alcobaça, cuja sombra tutelar as crianças da família conhecem bem desde o berço. O meio alcobacense destes anos, como o nacional, é atravessado por conflitos entre republicanos e monárquicos. O ano de 1908 será o ano do Regicídio. A República afirmava a necessidade de implantar a democracia contra os reis e os padres. O mundo da infância e adolescência de Natividade é, assim, marcado por fortes influências contraditórias.

Alcobaça tinha nesses anos um ambiente histórico e artístico de excepção, ao qual figuras como o poeta Afonso Lopes Vieira procuraram dar projecção nacional e internacional. Manuel relacionara-se com importantes figuras da sua época e, ao serão, um autêntico cenáculo ocorria no seu escritório, onde se debatiam temas artísticos e científicos, que muita influência tiveram na formação dos filhos. Pela iniciativa daquele poeta de Leiria, ficaram-se a dever vários serões de arte, realizados à sombra do mosteiro (NOBRE, 2003). A 17 de Agosto de 1913 realizou-se o primeiro Serão Literário(2) de Alcobaça, que o escritor fez questão de organizar minuciosamente, contando com a preciosa ajuda de Manuel Vieira Natividade. O serão incluiu versos declamados pelo actor Augusto Rosa, dança, música e poesia pelas irmãs Alice e Maria Rey Colaço. Em Agosto de 1914, Lopes Vieira voltou a organizar novo serão, desta vez com a presença do soprano Berta de Bívar, do pianista Vianna da Motta e coros de Mme. Bensaúde.


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2 Mas estas romagens pela arte foram interrompidas pelo clima da Primeira Guerra Mundial, e só em Julho de 1929 são de novo retomadas, aquando da reintegração da sala do refeitório do mosteiro. A partir de 1935, as romagens readquirem uma funcionalidade específica em ligação com obras do mosteiro. Nesse ano Lopes Vieira conseguia levar à cena, no claustro do Mosteiro, o Auto da Mofina Mendes, pela empresa Rey Colaço-Robles Monteiro, num espectáculo a que assistiram entre 5000 e 6000 pessoas. À sombra do mosteiro, Lopes Vieira viveu mais de 30 anos obcecado com a defesa de um património cultural e empenhado em fazer chegar ao maior número possível de pessoas a dimensão estética. (NOBRE, 2003)


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"Três Pessoas e um Sobreiro"



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