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A ESTAÇÃO DO SOBREIRO

Os antecedentes próximos da Estação do Sobreiro remontam aos inícios do século XX, com a Estação Aquícola do Rio Ave e o Laboratório de Biologia Florestal, criados no âmbito dos Serviços Florestais. O laboratório, que se ocupava da entomologia e de ensaios de sementes, nasce, fisicamente, «numa pequena sala do primeiro pavimento do edifício do antigo Mercado Central de Produtos Agrícolas», no Largo do Terreiro do Trigo, a Santa Apolónia, «onde também se encontravam instaladas todas as repartições técnicas e administrativas da DGSFA» (SEABRA, 1939). Deve-se o impulso inicial a António Mendes de Almeida, «procurando assim dotar a DGSFA com um organismo diferente do que são as várias secretarias que a mecânica burocrática exige», e o seu primeiro e principal orientador foi o entomólogo Antero de Seabra. A Secção de Entomologia de Seabra foi transferida para Coimbra, em 1922, onde tirocinaram os colegas de Natividade Arala Pinto, Paula Brito e Santos Hall. Competia-lhe o estudo das grandes pragas que prejudicavam o património florestal e dos meios práticos de as combater e debelar, ou reduzir as suas consequências nefastas.

O outro antecedente, este muito mais recente, tem maior proximidade física com Alcobaça. Em Abril de 1924, por iniciativa mais uma vez de Mendes de Almeida, criaram-se em Portugal duas estações de investigação científica denominadas «do Pinheiro Bravo» e «do Sobreiro». Ambas subordinadas à Divisão de Estudos e Ordenamento (3.ª Divisão Técnica), a primeira ficou instalada junto do pinhal de Leiria.

Em Fevereiro de 1930, Joaquim Vieira Natividade ingressa na DGSFA, sendo nomeado três meses depois director da Estação Experimental do Sobreiro e Eucalipto. Em Maio do ano anterior, no seu relatório de tirocínio de engenheiro silvicultor, Natividade já dedicava algumas linhas a uma hipotética estação experimental perto de Alcobaça, na Mata Nacional do Vimeiro:

CitacaoNeste momento em que os trabalhos de investigação científica, quer no ramo agrícola quer florestal, adquiriram e marcaram o seu justo lugar, não deixa de ter interesse fazer referência às condições excepcionais em que se encontram as Matas do Vimeiro para um campo de estudos desta natureza. Pouco se tem feito entre nós no que diz respeito ao estudo das folhosas. Os solos do Vimeiro, onde estas essências prosperam admiravelmente, estão em excelentes condições para pôr em prática este trabalhoCitacao  (NATIVIDADE, 1929).

A Estação do Sobreiro foi instalada (não sendo possível determinar com toda a certeza se desde o primeiro momento) num prédio construído pelo pai do escultor José Aurélio, de três andares, erigido na Rua Cândido dos Reis, em Alcobaça. Embora limitado em espaço, ao fim de dois anos os resultados do trabalho científico eram já considerados «os mais notórios». Durante três anos, o único silvicultor da estação foi o próprio Natividade. Os anos 30 são, portanto, o primeiro tempo do percurso científico florestal de Natividade. Desde esse momento, teve um espaço pessoal, fora do perímetro doméstico, onde se entregava longas horas à ciência, à observação e também ao estudo afincado das publicações que conseguia adquirir.


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Os propósitos principais a atingir pela Estação do Sobreiro eram os seguintes:

1) Determinar as causas do declínio da qualidade da produção «suberosa» dos montados portugueses e os processos de o atenuar ou evitar.

2) Estabelecer bases científicas que servissem de regra às mais importantes operações culturais: poda, descortiçamento, desbastes e mobilização do solo.

3) Pelo estudo das potencialidades da árvore, e das relações desta com o meio, determinar as condições técnicas para o desenvolvimento da cultura e o melhor aproveitamento da capacidade suberícola do país.

Em Abril de 1931, Natividade entrega o seu primeiro trabalho original no campo da subericultura à DGSFA, que seria publicado um ano mais tarde no Boletim do Ministério da Agricultura: Poda dos Sobreiros.

CitacaoNão se pode esquecer que a Estação do Sobreiro tinha e tem como principal finalidade, não a investigação científica pura, mas a resolução de inúmeros problemas práticos que a cultura entre nós dia a dia suscitava; não a acumulação pura e simples de novas conquistas no domínio da biologia do sobreiro, mas a investigação e a experimentação para uma finalidade imediata. […] Diligenciou-se, no entanto, não ficar mal com os cientistas, por amor da subericultura, nem mal com a subericultura por amor dos cientistasCitacao  (NATIVIDADE, 1941).

Mas desde o princípio do funcionamento da Estação, Natividade percebe que fazer investigação com espécies florestais não era uma tarefa fácil:

CitacaoConstituíram sempre as espécies lenhosas material pouco atraente para os investigadores. A morosidade dos estudos, em consequência do lento crescimento das árvores; a tardia apreciação dos resultados de qualquer experiência; as dificuldades que oferecem os ensaios fora do laboratório e a impropriedade do material para nele se estudarem os problemas mais palpitantes da biologia; e até, por fim, a persistência que o trabalho com as espécies lenhosas exige, conduziram ao resultado estranho de ser este o grupo vegetal menos familiar aos cientistas. A situação agrava-se no sobreiro, cuja acanhada área geográfica restringe a cultura a alguns países mediterrânicos, onde diminuto interesse se lhe tem dispensado do ponto de vista científico. Desajudada assim, do contacto com estabelecimentos congéneres, e de investigações e experimentações prévias que permitissem circunscrever o âmbito das próprias pesquisas, a tarefa a realizar pela Estação apresentou-se, desde o início, assustadoramente vasta e sobremaneira dificultosaCitacao  (NATIVIDADE, 1941).


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"Três Pessoas e um Sobreiro"



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