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MELHORAMENTO GENÉTICO

Gomes Guerreiro fala assim dessa época: «Nos anos 30, o melhoramento genético, técnica prometedora para aumentar a diversidade da população e a percentagem de indivíduos com características recomendáveis acima da média, não entrava nos processos de actuação dos silvicultores portugueses. O lento crescimento das árvores dificultava o trabalho nesse rumo, a ciência genética estava praticamente vedada a estes engenheiros». (GUERREIRO, 1991)

Os silvicultores eram naturalmente desconfiados com a genética: «Historicamente, os silvicultores não olhavam em tempos passados as árvores como organismos com herdade semelhante aos outros seres vivos. Em consequência, a sua variabilidade genética era ignorada e considerava-se que o desenvolvimento de uma árvore dependia exclusivamente do ambiente onde vivera e que o melhoramento só se podia traduzir na modificação positiva de algum factor ecológico, como a preparação do terreno antes de semear para melhorar o nascimento». (GUERREIRO, 1943)

O plano de estudos de um silvicultor não incluía referência alguma à ciência genética, e Natividade sabia que «os primeiros organismos orientados ao melhoramento das plantas lenhosas foram fundados na Alemanha, em 1932, na Suécia, em 1936, e no Canadá, em 1938». (NATIVIDADE, 1969)

Assim, apesar «das questões genéticas, na época em que iniciamos os nossos trabalhos, ocuparem lugar muito secundário dentro dos estudos florestais, foi possível traçar o plano de melhoramento do sobreiro, que se tem seguido sem modificações essenciais». (NATIVIDADE, 1941)

A primeira linha geral de ataque do plano de trabalho falava explicitamente do melhoramento genético, através da hibridação e da mutabilidade induzida, para se criarem novas formas com melhores características culturais e económicas.

CitacaoComeçou-se, como era indispensável, pelas investigações citológicas. Estudaram-se e mediram-se os cromossomas somáticos das três variedades botânicas e de numerosas formas do sobreiro, e ainda de outras Quercus da flora portuguesa e de algumas exóticas, assim como se apreciou o comportamento dos cromossomas durante as divisões meióticas, observações estas que se interpretaram do ponto de vista taxonómico e filogenético. Neste último aspecto, evidenciou-se, para as Quercus, a possibilidade de uma origem filogenética comum, e discutiram-se os processos por que as espécies actuais se diferenciaram. Embora estas se comportem hoje como diplóides, o estudo citológico sugeriu que elas sejam na realidade alotetraplóides, cuja completa segregação explicaria em grande parte a considerável extensão do género Quercus. Deu-se ao mesmo tempo início à análise genética do sobreiro, pelo estudo da hereditariedade dos principais caracteres, e começámos a estudar e reunir material para futuros trabalhos de melhoramento, que nesta espécie se caracterizam por uma desesperadora morosidade. São já interessantes, todavia, os resultados obtidos quanto ao vigor dos híbridos e quanto ao comportamento hereditário da assentada geradora de cortiça. Tentaram-se provocar alterações citológicas, e em especial a produção de formas tetraplóides pelo recurso à colchicina, embora estas tentativas não tenham sido, até agora, coroadas de êxito apreciável.Citacao   (NATIVIDADE, 1941)


Deixemos mais uma vez que seja Guerreiro a explicar-nos como trabalhava esta ciência do melhoramento genético, em 1943:

CitacaoPrimeiro, o melhorador objectiva o que pretende, define os caracteres que deseja e com eles constrói o que se pode chamar um mapa de melhoramento para o género considerado: indicando para cada carácter isolado, e em conjunto, a espécie ou variedade que lhe corresponde. Construído o mapa, o melhorador não perde de vista as árvores de caracteres desejados, e por bem estudados cruzamentos pretende uni-los num único indivíduo. Assim consegue acumular, numa só árvore, caracteres dispersos por muitas, e chama-lhe então melhorada. Não encontrando os caracteres desejados, ou insatisfeito com as possibilidades que a natureza lhe oferece, recorre a agentes físicos – raios X, alcalóides, calor, centrifugação, etc. –, induzindo mutações, desvios do tipo médio. A variação é a principal arma do melhorador e tudo o que possa induzir variações ele chama processo seu. Estão neste caso a hibridação, as mutações e o poliploidismo […]. O melhorador tem que olhar dia a dia os indivíduos com que lida, notar-lhes as diferenças, eliminar as formas indesejáveis, estudar os portadores de características favoráveis, e a sua descendência […]. Quando a árvore se propaga bem vegetativamente, o trabalho quase que se resume à obtenção dum único indivíduo nas condições requeridas. Ele só dará origem, em bem poucos anos, a uma floresta.Citacao  (GUERREIRO, 1943)

A partir de 1937, esta Estação de Experimentação Florestal de Alcobaça começaria a funcionar, «em perfeita sintonia com o Departamento de Pomologia da Estação Agronómica». Com a orientação de Natividade, e num ambiente cientificamente aberto, surgiram em Alcobaça, ao mesmo tempo, projectos nacionais relacionados com as espécies pomológicas, oliveiras, videiras, castanheiros, choupos e sobreiros e pinheiro bravo (para resina e madeira). Estes incluíam estudos de cariologia, de genética, de multiplicação vegetativa das castas e dos clones seleccionados, sempre com o interesse económico presente (GUERREIRO, 1991).


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"Três Pessoas e um Sobreiro"



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